Inês Fronteira Gonçalves; Paulo Ferrinho
A Epidemiologia ultrapassou as fronteiras da quantificação da doença para se expandir para todas as áreas da saúde (medição do peso da doença, identificação das causas, quantificação da efectividade das diferentes intervenções, avaliação da eficiência em relação aos recursos necessários, implementação das intervenções e monitorização das actividades).
É aos profissionais de saúde que cabe a responsabilidade de colher dados epidemiológicos e contribuir para a formação de um corpo de saberes em saúde que permita decidir, com base na evidência, acerca de tratamentos, intervenções e políticas de saúde. Para que tal aconteça é fundamental que a Epidemiologia faça parte dos curricula dos cursos relacionados com a saúde, nomeadamente do Curso de Licenciatura em Enfermagem (CLE).
O presente estudo observacional, descritivo, de base documental, teve como objectivo descrever o ensino da Epidemiologia nos CLE ministrados nas instituições de ensino público e privado na Região de Lisboa e Vale do Tejo, no ano lectivo de 2004/2005. Assim, foram analisados os planos dos cursos quanto à presença da Epidemiologia como unidade curricular. As instituições com um plano de estudos do CLE que contemplasse uma unidade curricular de Epidemiologia foram contactadas, primeiro telefonicamente e, posteriormente, por fax ou e-mail, com o objectivo de fornecerem o programa da unidade curricular. As instituições de ensino com um CLE que não incluía no plano de estudos a unidade curricular Epidemiologia foram contactadas telefonicamente com o intuito de apurar se, não contemplando esta unidade curricular, os seus conteúdos estariam, ou não, incluídos noutras unidades curriculares. Os programas, assim como as respostas à entrevista telefónica, foram submetidos a análise de conteúdo. Foi ainda contabilizado o número de horas de aulas teóricas e teórico-práticas tendo-se para tal recorrido a medidas de tendência central.
Na região de Lisboa e Vale do Tejo existiam 13 instituições de ensino com o CLE (7 públicas e 6 privadas). Cinco tinham, no plano de estudos, uma unidade curricular com a denominação de Epidemiologia e 1 com a denominação Epidemiologia e Avaliação Clínica. Os seus conteúdos são descritos. Os CLE das restantes instituições não tinham nenhuma unidade curricular, no plano de curso, com a denominação Epidemiologia ou similar. Das 5 instituições com CLE, sem unidade curricular de Epidemiologia, e contactadas com sucesso, apenas uma não tinha os conteúdos de Epidemiologia incluídos noutra ou noutras unidades curriculares do plano de estudos
A carga horária das unidades curriculares variava consoante o estabelecimento de ensino. Os programas de ensino também variam entre as escolas que os ofereciam.
A Epidemiologia parece não ser considerada como uma disciplina essencial para a formação pré-graduada dos enfermeiros visto que menos de metade dos cursos de licenciatura a contemplam nos seus planos de estudos, no entanto os seus conteúdos estão contemplados de uma forma diversa em quase todos os programas de ensino. Os autores recomendam que a Epidemiologia deve formalmente, como disciplina essencial, integrar os curricula de todos os CLE mas que deveria ser obtido consenso sobre quando e sobre que forma esta deve ser ministrada, recomendando ainda uma aproximação entre as diferentes escolas e a Ordem dos Enfermeiros, sobre um perfil básico de competências em Epidemiologia para os enfermeiros recém-licenciados.
Palavras-chave: epidemiologia; ensino; enfermagem; formação; profissionais de saúde.